“Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças” (Charles Darwin, 1859). Para sobreviver, diante das inúmeras mudanças ambientais, o homem primata, assim como as demais espécies de animais, tiveram que se arranjar para preservar e perpetuar a espécie humana. Seria cabível dizer que, graças aos repertórios de fuga-esquiva, emitidos pela espécie humana esse objetivo se tornou possivel.
A Teoria da Evolução, proposta por Charles Darwin em 1859, atesta que é o ambiente, por meio de seleção natural, que determina a relevância da característica do indivíduo ou de suas variações, e os organismos mais bem adaptados a esse universo têm maiores chances de sobrevivência, deixando um número maior de descendentes. Os organismos melhores adaptados são, deste modo, selecionados (escolhidos) pelo ambiente e, destarte, ao longo das gerações a atuação da seleção natural mantém ou aprimora o grau de adaptação dos organismos, fixando suas características no ambiente.
Adaptação seria uma palavra chave para este tempo de pandemia que, aos poucos, vem sendo controlado pela comunidade científica e pela conscientização de uma boa parte da população brasileira.
A pandemia da covid-19 trouxe muitas incertezas para a sociedade. Com colapso na saúde pública, eclodido em função do elevado número de pessoas infectadas gravemente e um número reduzido de leitos para o tratamento intensivo e entubação, o que se viu, foram milhares de pessoas morrendo por falta de respiradores. Outras pessoas, por sua vez, resistiram ao virus impiedoso, e viram seus entes queridos e amigos próximos partindo dessa. Estes, também viram sua vida financeira desmoronar e sem muitas opções, tentar se organizar minimamente. O fato é que todas as pessoas que foram infectadas por esse vírus letal, ameaçador e invisível e as que não foram, adoeceram de alguma forma, tanto fisicamente quanto “emocionalmente”.
As marcas deixadas pelo novo coronavírus (Sars Cov2) não foram somente as baixas de pessoas importantes, mas também, prejuízos psicológicos quase que irreparáveis para alguns. A ansiedade e a depressão se fizeram protagonistas na vida das pessoas pela presença de estímulos pré-aversivos e pela escassez de reforçadores positivos.
Sendo assim, faz-se necessário conceituar tais transtornos. Na perspectiva da Análise do Comportamento, os usos do conceito de ansiedade têm variado em pelo menos duas direções. Na primeira, há uma ênfase em relações operantes não verbais que definem o fenômeno. Na outra, a ênfase recai em relações verbais e em possíveis relações indiretas entre estímulos.
Em Fester, Culbertson e Perrot Boren (1977), Lundin (1969/1977), Millenson (1967/1975) e Skinner (1953/1965, 1989), encontram-se exemplos do primeiro tipo de abordagem, enfatizando-se contingências que incluem um estímulo pré-aversivo, um estímulo aversivo (para alguns, incontrolável) e uma resposta “emocional” eliciada pelo pré-aversivo.
Para Skinner (1965), a ansiedade deve ser interpretada com uma certa cautela, merecendo uma intervenção baseada nos princípios de uma ciência do comportamento.
As argumentações de Friman, Hayes et al. (1998) e Kanfer e Phillips (1974), ilustram o segundo tipo de enfoque, no qual são destacados aspectos referentes à linguagem como fonte de controle de respostas de ansiedade e relações indiretas entre estímulos (públicos e privados).
A análise skinneriana (cf. Estes & Skinner, 1941/1961; Skinner, 1957, 1953/1965, 1989) é tomada como ponto de partida, visto que constitui a referência em que outros textos analítico-comportamentais se fundamentam. Em diferentes momentos, essa abordagem aponta que: (a) um estímulo pré-aversivo elicia respostas fisiológicas emocionais; (b) essas respostas emocionais podem elas mesmas adquirir funções aversivas; (c) um outro efeito da exposição às contingências que produzem ansiedade (estimulação aversiva com pré-sinalização) consiste da redução na taxa de resposta antes mantida por reforço positivo (a supressão condicionada); e (d) um estimulo verbal pode vir a adquirir a função eliciadora da resposta fisiológica (emocional), a partir de uma associação com o estímulo eliciador incondicionado.
Segundo Skinner (1953/1965, p. 178): “há efeitos emocionais que podem ocorrer apenas quando um estímulo precede caracteristicamente um estímulo aversivo com um intervalo de tempo suficientemente grande para permitir a observação de mudanças comportamentais. A condição resultante geralmente é denominada ansiedade”.
“a condição sentida como ansiedade passa a funcionar como um segundo estímulo aversivo condicionado” (Skinner, 1989, p. 7).
“o efeito do estado emocional é uma depressão temporária da força do comportamento” (Estes & Skinner, 1941/1961, p. 399).
Se um estímulo verbal costuma acompanhar alguma situação, que é o estímulo não condicionado ou previamente condicionado para uma reação emocional, o estímulo verbal eventualmente evoca essa reação. Assim, se alguém tem medo de cobra e se o estímulo verbal cobra acompanhou algumas vezes cobras de verdade, o estímulo verbal, sozinho, pode evocar uma reação emocional. (Skinner, 1957, p. 154-155).
A depressão, de acordo com o behaviorismo radical, deve ser compreendida a partir da análise das contingências que a mantém, visto que são nas relações do organismo com o ambiente que as contingências de reforçamento devem ser observadas em busca de explicações congruentes para o comportamento. Do ponto de vista analítico-comportamental, um comportamento deve ser investigado nos termos da sua função e, assim, a depressão poderia ser entendida como classes de respostas selecionadas e desenvolvidas ao longo da vida do indivíduo a partir de suas interações com o meio.
De acordo com o Manual Diagnóstico de Transtornos Mentais, DSM IV (2000), a depressão é classificada dentre os Transtornos do Humor. Este diagnóstico é caracterizado pela presença dos seguintes sintomas: humor deprimido; interesse ou prazer acentuadamente diminuídos pelas atividades; perda ou ganho significativo de peso, diminuição ou aumento no apetite; insônia ou hipersonia; agitação ou retardo psicomotor; fadiga ou perda de energia; sensação de inutilidade; culpa excessiva ou inadequada; capacidade diminuída para pensar, concentrar-se ou indecisão; pensamentos recorrentes sobre morte e ideações suicidas.
Do ponto de vista da Análise do Comportamento, a depressão pressupõe a definição dos comportamentos apresentados pela pessoa e a identificação das relações entre as respostas dessa pessoa e os eventos que ocorrem no seu ambiente físico e social. Deve ser compreendida a partir das contingências que a mantém e, nas relações com o ambiente externo, devem ser buscadas as explicações para o comportamento (Cavalcante, 1997).
Segundo Cavalcante (1997), A depressão deve ser entendida, basicamente, como um conjunto complexo de comportamentos. Um padrão de interação com o ambiente envolvendo alterações específicas nos comportamentos operantes, respondentes e estados sentidos normalmente referidos como sentimentos. Por essa ótica, não há como compreender o comportamento depressivo sem recorrer a uma análise funcional.
De acordo com o Jornal Sinal Verde, um canal de comunicação do ITCR – Instituto de Terapia por Contingências de Reforçamento, publicado em 15/05/2009, a psicóloga especialista em TCR Ana Paula Gouveia Denipote, explica que “a depressão resulta basicamente da falta de eventos reforçadores na vida de um indivíduo. Um evento reforçador é aquele que aumenta a probabilidade da resposta que o produziu. Por exemplo, sair de casa para encontrar com amigos é uma resposta que produz possíveis reforçadores como conversar, paquerar, divertir-se. Portanto, se ao sair com amigos a pessoa obtém reforçadores, ela tenderá sair novamente e assim entrará em contato com estes reforçadores. Quanto mais um indivíduo se comportar, maior é a probabilidade de ele obter reforçadores e se sentir bem. Assim como uma baixa freqüência de atividades leva a uma baixa taxa de reforçamento e a pessoa possivelmente se sentirá deprimida. Note que os sentimentos – sentir-se bem ou sentir-se deprimido – são produzidos pelas contingências de reforçamento. São, portanto, produtos e não causas”.
A especialista continua, em sua explicação, dizendo que existem processos que reduzem o valor reforçador dos estímulos disponíveis e também condições de vida que limitam o acesso aos reforçadores aparecendo, então, os sintomas depressivos. Algumas destas condições ambientais que podem desencadear episódios depressivos. São elas:
• Mudanças drásticas nos esquemas de reforçamento: por exemplo, quando ocorre o fim de um relacionamento. A perda deste companheiro significa que já não há mais oportunidade de emissão de respostas que antes eram reforçadas, bem como reforçadores que eram acessíveis deixam de estar disponíveis. Ou então, no envelhecimento, quando as pessoas perdem habilidades que anteriormente eram usadas para obter reforçadores.
• Viver em um ambiente excessivamente punitivo ou hostil: se quase toda resposta do indivíduo é punida, ele vai aprender a se comportar para fugir da punição, então, desenvolve-se um amplo repertório de fuga-esquiva, o qual compete com a emissão de resposta positivamente reforçada. Por exemplo, um garoto cujo pai proíbe sua ida a festas. O garoto aprende a fugir de apanhar ou de um castigo não indo a festas, mas também não entra em contato com fontes de reforçadores que a festa proporciona como atenção, diversão e afetos.
• Excesso de experiências de imprevisibilidade e incontrolabilidade: se uma pessoa passa por uma história de impossibilidade de controle sobre a ocorrência de eventos aversivos ou de inacessibilidade a reforços positivos aprende a ser passiva, emite uma freqüência baixa de respostas e tem pouca sensibilidade ao reforço.
O tratamento comportamental para a depressão é feito através de instalação, fortalecimento e manutenção de novos repertórios de comportamento que produzam reforçamento positivo. No entanto, é imprescindível identificar quais são os déficits comportamentais do indivíduo que o levou à falta de reforçadores positivos e ajudá-lo a desenvolver repertórios adequados e variados para suprir esta carência. Entretanto, se os episódios depressivos forem graves, ou seja, se o indivíduo apresentar sintomas severos que o levam a não sair da cama, a não se relacionar socialmente, a não se alimentar de modo adequado, o processo terapêutico pode exigir intervenções mais complexas, tais como atendimento domiciliar, orientação sistemática para a família, contato contínuo com o cliente etc. então deve ser iniciado, além da terapia, um tratamento medicamentoso a partir de orientações de um psiquiatra.
A depressão , destarte, pode ocorrer num organismo não intacto, ou seja, em pessoas com perturbações neurofisiológicas, problemas hepáticos, tumores, alterações endócrinas etc. Esta possibilidade deve ser considerada desde o início e recomenda-se uma avaliação médica antes de se atribuir ao quadro clínico depressivo, uma determinação exclusivamente ambiental ou ligada à história de contingências da pessoa. O tratamento, em tais circunstâncias, deve envolver o trabalho integrado entre psicólogo e médico.
Entretanto, seria inconsistente atribuir a toda culpa, referente ao desenvolvimento dos transtornos de ansiedade e depressão à pandemia da covid-19. O que acontece é que muitas pessoas já faziam tratamentos psicológicos e psiquiátricos para tais doenças e, por isso, o adoecimento para essas pessoas, não se configurava uma consequência da pandemia.
Entretanto, o medo e a apreensão de se infectar com o novo coronavírus, as fake news, o negacionismo, a negligência à saúde pública, incluindo os movimentos contrários aos da vacinação para a imunização da população brasileira, as mortes e perdas importantes, os empregos perdidos e outros, fizeram com que os indivíduos experimentassem uma escassez de reforçadores positivos, cada vez maior, em suas contingências de reforçamento e, por consequência o adoecimento.
Por isso, seria normal uma pessoa emitir respostas de fuga-esquiva em situações aversivas. É mais prático se esconder do que realizar o enfrentamento. Porém, fugir simplesmente do problema não livra o indivíduo do sofrimento, mas, sim, emitindo respostas de contracontrole que o sujeito se sobressairá.
Portanto, “Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças” (Charles Darwin, 1859). Por isso, desenvolver novos repertórios comportamentais para o autogerenciamento, de tal modo que o indivíduo se torne capaz de resolver problemas adequadamente, manter o Autocontrole e tomar decisões de forma habilidosa, é isso que o fará competente para enfrentar obstáculos e as pressões do ambiente com inteligência e sabedoria. Afinal de contas, somente os mais aptos sobrevivem.
Referencias bibliográficas:
Cavalcante, S. N. (1997). Notas sobre o fenômeno depressão a partir de uma perspectiva analítico-comportamental. Psicologia: Ciência e Profissão, 17, 2-12.
Estes, W. K., & Skinner, B. F. (1961). Some quantitatives properties of anxiety. In B. F. Skinner (Ed.), Cumulative record: Enlarged Edition (2. ed., pp. 393-404). New York: AppletonCentury–Crofts. (Original publicado em 1941)
Fester, C. B., Culbertson, S., & Perrot Boren, M. C. (1977). Princípios do comportamento. São Paulo, SP. Hucitec.
Friman, P. C., Wilson, K. G., & Hayes, S. C. (1998). Behavior analysis of private events is possible, progressive, and nondualistic: A response to Lamal. Journal of Applied Behavior Analysis, 31, 707-708.
Hayes, S. C., Hussian, R. A., Turner, A. E., Anderson, N. B., & Grubb, T. D. (1983). The effects of coping statements on progress through a desensitization hierarchy. Journal of Behavior Therapy and Experimental Psychiatry. 14, 117-129.
Kanfer, F. H., & Phillips, J. S. (1974). Os princípios da aprendizagem na terapia comportamental. São Paulo, SP: EPU.
Lundin, R. W. (1977). Personalidade: Uma análise do comportamento (R. R. Kerbauy, Trad.). São Paulo, SP: EPU. (Original publicado em 1969)
Millenson, J. R. (1975). Princípios de análise do comportamento. Brasília, DF: Coordenada. (Original publicado em 1967)
Skinner, B. F. (1957). Verbal behavior. New York: AppletonCentury.
Skinner, B. F. (1965). Science and human behavior. New York: Free Press. (Original publicado em 1953)