Francisco Gerino Junior – Artigo apresentado para conclusão do curso de especialização em psicopedagogia institucional e clínica pelas FIU – Faculdades Integradas Urubupungà – 2019.
INTRODUÇÃO
O tema deste artigo refere-se às dificuldades de aprendizagem acometidas na leitura e escrita e seus efeitos emocionais, em alunos evadidos da escola, com contribuições à luz da Análise do comportamento para a atuação do psicopedagogo no ambiente escolar. Infelizmente, muitas pessoas abandonam a escola por se sentirem incapazes de aprender a ler e escrever e, assim, questiona-se a origem deste problema que acaba acarretando dificuldades de adaptação no ambiente escolar e, por fim, a evasão escolar.
A resposta não é tão simples assim, porém, “o fenômeno da evasão e repetência longe está de ser fruto de características individuais dos alunos e suas famílias. Ao contrário, refletem a forma como a escola recebe e exerce ação sobre os membros destes diferentes segmentos da sociedade”. (BRANDÃO, 1983, p. 38-69)
Brandão (1983) afirma que a culpa da evasão escolar não pode ser responsabilizada somente a família ou tão somente ao indivíduo. A escola também precisa se responsabilizar pelo fracasso ou sucesso do aluno, embora não dependa exclusivamente apenas da instituição, mas, dependerá muito de como esta instituição tratará este assunto sem que o que o indivíduo se sinta incapaz e preterido.
A escola deve reconhecer os muitos saberes que o aluno carrega de conhecimento de mundo, oportunizando a demonstração de suas reais potencialidades a serem desenvolvidas, sem prestigiar apenas conhecimentos verbais e matemáticos, mas incentivando seus diversos modos de aprender.
Sob a ótica da Análise do Comportamento, o processo de aprendizagem toma um outro rumo, considerando que todo organismo, ao emitir uma resposta, produz uma consequência reforçadora e, assim, aumentando as probabilidades de respostas similares e de sucesso se repetirem.
Diante destas considerações, discorreremos sobre o conceito de comportamentos verbais de leitura e escrita, autoconceito e autoestima, bem como, equivalência de estímulos e reforçamento positivo, como proposta de intervenção psicopedagógica e promoção da aquisição da aprendizagem.
Portanto, a intenção deste artigo não é simplesmente discorrer sobre dificuldades de aprendizagem na leitura e escrita e seus efeitos emocionais, mas, compreender o fenômeno da evasão escolar e demonstrar como a abordagem comportamental pode contribuir na redução do abandono da escola, melhorando a autoestima e o autoconceito do aluno evadido por não se sentir capaz de aprender.
REFERENCIAL TEÓRICO
Crianças com dificuldades de aprendizagem, de modo geral não conseguem apresentar um bom desempenho escolar. Sua competência intelectual de assimilar e acomodar a aprendizagem parece entrar em paralisação, fazendo com que o seu desempenho escolar se torne incongruente. Tais alunos podem manifestar problemas de concentração, distração, desinteresse em atividades novas, pendências nos trabalhos propostos em sala de aula, dificuldades em seguir as instruções do educador e faltar às aulas.
Gusmão (2001) aponta as dificuldades de aprendizagem como uma falha no processo da aprendizagem que ocasionou o não aproveitamento escolar. Refletindo não apenas em termos de falhas na aprendizagem, como também no ato de ensinar, essas dificuldades não se traduzem apenas em um problema próprio do sujeito aprendiz no que diz respeito a competências e potencialidades, mas sim em uma série de fatores que envolvem direta ou indiretamente o processo de ensino.
À medida que o aluno percebe sua dificuldade em aprender, ele passa a sentir-se desmotivado, perdendo o interesse pela escola e, muitas vezes, apresentando problemas comportamentais e também transtornos emocionais. Para Furtado (2007, p. 03):
Quando a aprendizagem não se desenvolve conforme o esperado para a criança, para os pais e para a escola ocorre a “dificuldade de aprendizagem”. E antes que a “bola de neve” se desenvolva é necessário a identificação do problema, esforço, compreensão, colaboração e flexibilização de todas as partes envolvidas no processo: criança, pais, professores e orientadores. O que vemos são crianças desmotivadas, pais frustrados pressionando a criança e a escola.
Conforme Major (1997) o termo “problemas de aprendizagem” é constantemente incompreendido, em função das várias definições que lhes foram atribuídas. Geralmente, quando se menciona uma criança com problemas de aprendizagem, faz-se inferência a uma criança com inteligência mediana (ou acima da média), sem problemas emocionais ou motores que sejam sérios e que pode ouvir a partir dos parâmetros normais. Porém, a mesma poderá apresentar algumas dificuldades nas atividades escolares habituais. Essa criança não é o aprendiz vagaroso que não tem habilidade para aprender em ritmo normal, ou uma criança emocionalmente perturbada e emocionalmente mal ajustada.
Em diferentes casos, a dificuldade no aprendizado tem sua gênese atada a fatores múltiplos e a maneira como estas crianças são afligidas por esses coeficientes é definida pelo ambiente nas quais elas estão inseridas. Para Souza (1996) a convivência no lar e na escola pode fazer a diferença entre uma deficiência propriamente dita, e um problema que torna o aluno incapaz de assimilar o conteúdo escolar. O ambiente familiar e escolar no qual o indivíduo convive pode afetar o seu desempenho intelectual ou desfavorecer o seu potencial de aprendizagem.
Dentre tantos fatores que afetam negativamente no processo de aprendizagem no aluno, um desses é o agente socioeconômico. Ou seja, se o interesse maior estiver fincado na sobrevivência familiar e, para isso, todos precisarem trabalhar para sua própria subsistência, o processo de ensino e aprendizagem ficará em segundo plano. Conforme Valla (1994) este enraizamento cultural é um dos fatores determinantes no processo de aprendizagem, problemas como a desnutrição e a pobreza, são fatores que contribuem para o fracasso escolar.
Patto (1999) afirma que até o final do século XIX praticamente varreu da face da terra a monarquia como regime político dominante, destituindo a nobreza e o clero do poder econômico e político, inviabilizando as relações servo-senhor feudal enquanto relação de produção dominante, empurrando, desta forma, grandes contingentes das populações rurais para os centros industriais. Gerando, assim, os grandes centros urbanos com seus contrastes, vindo coroar o processo de constituição dos estados nacionais modernos e engendrou uma nova classe dominante – a burguesia.
A autora Patto (1999) ainda ressalta que ao realizar sua pesquisa sobre os primórdios históricos do fracasso escolar, preconiza como as justificativas para a frustração escolar estavam rigorosamente entrelaçadas ao modo capitalista de compreender a realidade, e como essa prédica conservava a situação de dominação sofrida pelas famílias mais pobres. Elucida a respeito das questões políticas que circundam a abordagem dos problemas escolares, onde fica irrefutável o interesse e a manipulação das classes sociais dominantes.
Nas palavras de Patto (1999, p. 63), a “pedagogia nova e a psicologia científica nasceram imbuídas do espírito liberal e propuseram-se, desde o início, a identificar e promover os mais capazes, independentemente de origem étnica e social”.
A Psicologia, ao investigar as dificuldades de aprendizagem escolar, é fortemente influenciada pela concepção organicista das aptidões humanas (impregnada de pressupostos elitistas e racistas) e por uma concepção que considera as influências ambientais. Dessa forma, apresenta uma explicação sobre as causas do fracasso escolar recheada de ambiguidades, e esse discurso fundamenta a Teoria da Carência Cultural e o insucesso escolar nos países capitalistas ao longo do século XX. (PATTO, 1999).
Para Dell Prette e Dell Prette (1998) as dificuldades de aprendizagem é um problema psicossocial, as crianças incentivadas pela família a estudar, que recebem acompanhamento dos pais ou responsáveis na vida escolar, são mais positivas, tanto na capacidade em aprender, quanto no relacionamento com os demais colegas. Enquanto que as crianças que não são estimuladas pelas suas famílias a estudarem, já de início começam a enfrentar obstáculos, mesmo não tendo deficiências cognitivas ou físicas, tendendo a desenvolver as habilidades básicas de forma mais lenta e geralmente não apresentam um bom relacionamento com os outros colegas.
Fracasso escolar afeta o aprender do sujeito em suas manifestações sem chegar a aprisionar a inteligência: muitas vezes surge do choque entre o aprendente e a instituição educativa que funciona de forma segregadora. “Para entendê-lo e abordá-lo, devemos apelar para a situação promotora do bloqueio” (FERNANDEZ, 1990, p. 33).
Smith e Lisa Atrick (2001) afirmam que as dificuldades de aprendizagem podem resultar-se de problemas como violência doméstica, fatores emocionais, escolas superlotadas, mal estruturadas, turmas multisseriadas, falta de materiais didáticos, professores mal preparados e desmotivados. São variáveis que podem afetar diretamente o desenvolvimento do ensino e aprendizagem no Ensino Fundamental e podem diminuir de maneira significativa as chances de uma criança superar as dificuldades de aprendizagem.
O estresse emocional também compromete a capacidade das crianças para aprender. A ansiedade em relação a dinheiro ou mudança de residência, a discórdia familiar ou doença pode não apenas ser prejudicial em si mesma, mas com o tempo pode corroer a disposição de uma criança para confiar, assumir riscos e ser receptiva a novas situações que são importantes para o sucesso na escola. E trágico percebermos que números crescentes de crianças não estão realmente disponíveis para a aprendizagem, porque suas vidas são dominadas pelo medo: perigos em seus lares ou na vizinhança fazem com que precisem dedicar a maior parte de sua energia mental à questão urgente da proteção pessoal. Se a própria escola não for segura, as perspectivas acadêmicas de todo um grupo estudantil poderão ser prejudicadas. (SMITH e LISA ATRICK 2001, p. 19)
Leite (1988) também relaciona o fracasso escolar a fatores extra-escolares como a realidade socioeconômica a que está inserida a maioria da população brasileira, resultantes das relações de trabalho e pobreza. E também a fatores interescolares como a distância cultural entre a escola pública e sua população de professores com formação inadequada e problemas de natureza metodológica.
Sendo assim, para que seja identificada uma dificuldade de aprendizagem é necessário realizar uma avaliação criteriosa, para, a partir dessas amostras, planejar e aplicar um programa de intervenção psicopedagógica, de modo que estes problemas de aprendizagem possam ser identificados e aprimorados, tendo em vista que o profissional deve conhecer o conjunto de variáveis e as causas do problema para que a intervenção aconteça de forma específica e resoluta.
O diagnóstico, por sua vez, é inferido a partir do desempenho acadêmico do indivíduo, que é considerado por alguns estudiosos como uma relação entre a capacidade cognitiva e os sentimentos que o indivíduo tem de si mesmo. Ele envolve ainda a interdisciplinaridade em pelo menos três áreas: a neurologia, a psicopedagogia e a psicologia (SAMPAIO, 2011).
Aprender a ler e escrever é o primeiro desafio da criança no ambiente escolar. A família e a escola, partindo deste ponto, precisam assumir a responsabilidade de favorecer para que a leitura e escrita façam parte do histórico de contingências da criança.
As consequências produzidas pela sensação de êxito, experimentado pela criança, ao descobrir que ela é capaz de aprender a ler e escrever favorece para que encare novos desafios e descubra suas outras potencialidades. E é no seio familiar que o individuo, sedento de saber, se desenvolve. Entretanto,
É preciso compreender a família como um fenômeno historicamente situado, sujeito a alterações, de acordo com as mudanças das relações de produção estabelecidas entre os homens […] É evidente que as funções da família vão depender do lugar que ela ocupa na organização social e na economia. (ARANHA, 1989, p. 75).
Conforme as premissas da Análise comportamental, toda criança vem ao mundo como uma “tábula rasa”, ou seja, sem saber nada de seu mundo social, a priori, e, tudo o que ela aprende é assimilado através de experiências com o meio ambiente, dentro de um processo de adaptação com o outro e, esta, desenvolve seus saberes linguísticos por meio de estímulo-resposta (E-R), imitação e reforço.
De acordo com Matos (1991), sob certas circunstâncias, falar, escrever, digitar um texto usando um computador, usar códigos podem ser exemplos de comportamentos verbais, desde que a característica de comportamento, mediado por um ouvinte especificamente treinado, seja clara. É muito importante, contudo, considerar o contexto em que o comportamento ocorre, para confirmar sua definição como verbal ou não-verbal. O comportamento de assobiar, por exemplo, pode ser um comportamento verbal, dependendo do efeito que tem sobre o ouvinte. Assobiar pode fazer parte de um código verbal e, neste caso, seria um comportamento verbal.
Segundo Baum (1999), o estímulo é tudo o que se refere ao contexto em que o comportamento ocorre, e o controle é aquilo que muda a probabilidade de ocorrência da resposta, ou seja, o que a torna mais ou menos frequente naquele determinado contexto.
Skinner (1957) apresentou o comportamento verbal como um comportamento operante, passível de investigação e análise da mesma forma que outros comportamentos, ou seja, por meio dos mesmos princípios básicos da Análise do Comportamento. A singularidade deste fenômeno comportamental encontra-se na sua instalação e manutenção: sua emissão está sob controle de reforçamento proveniente da mediação de outras pessoas de uma mesma comunidade verbal, que tiveram seus comportamentos modelados e “mantidos por um ambiente verbal transmitido de uma geração para outra” (SKINNER, 1986, p. 121).
Segundo Skinner (1957/1992), o comportamento verbal é um comportamento operante, atuando sobre o ambiente e sofrendo as consequências da alteração que provoca nele. Estas consequências – como o reforço e a punição – determinarão a probabilidade de emissão futura da classe de respostas que integram o operante. O que pormenoriza o comportamento verbal frente aos outros operantes é que, em seu caso, as relações entre a consequência preenchida pelo ambiente e a resposta são reguladas por práticas culturais. A consequência é apresentada pelo ouvinte cujo comportamento consequenciador já foi, no passado, instalado por sua comunidade verbal.
De acordo com o estudo clássico de Gibson, Gibson, Pick e Osser (1962), revela que crianças mais novas não distinguem a predisposição espacial de figuras. Por exemplo, as letras “u” e “n”, e as letras “p”, “q”, “b” e “d”, têm basicamente a mesma forma, em diferentes orientações espaciais. Gibson e colaboradores sugerem que esta dificuldade das crianças é resultado de aprendizagem. Todo histórico antecedente de uma criança a leva a desconsiderar este enfoque, porque ela é irrelevante para a discriminação de objetos.
Sendo assim, uma das contribuições da Análise Comportamental tem sido realçar como o controle de estímulo é modificado através da história de contingências de reforço. Ou seja, tudo vai depender de como a criança elabora seu histórico de aprendizagem, seja em relação ao aspecto reforçador assim como em relação ao estímulo punitivo, influenciando em respostas adequadas ou não no futuro.
A relação entre resposta e estímulo discriminativo, observada por Sidman (1986a), diz que, esta, é a base do que o indivíduo conhece a respeito do seu ambiente. Todos os repertórios acadêmicos estão baseados em relações refinadas entre estímulos discriminativos e respostas, sejam estas verbais ou não-verbais. Esta relação entre estímulo discriminativo e resposta é denominada controle de estímulo, ou discriminação. Como todo e qualquer comportamento operante, os comportamentos de ler e escrever para serem aprendidos e mantidos, precisam ser reforçados.
Reconhecer os pequenos avanços de uma criança com dificuldades de aprendizagem, em especial, quando ela está aprendendo a ler e escrever, faz com que estes repertórios comportamentais instalados, sejam preservados. Sidman (1971), a partir de seus experimentos sobre equivalência de estímulos, apresenta o conceito de que alguns estímulos, equivalentes entre si, se transformam em classes de estímulos, proporcionando a repetição das respostas similares, emitidas por um organismo.
Em conformidade com de Rose (1993), as quatro propriedades da equivalência fundamentam o fenômeno conhecido como compreensão em linguagem. A emergência das relações identificadas a partir da equivalência representa uma significativa economia em termos de aprendizagem, pois o indivíduo aprende até o que não lhe foi diretamente ensinado.
A criança, antes de aprender a ler e escrever, na prática pedagógica, já tem consigo conteúdos prévios que ela traz de sua comunidade verbal, cujos são mesclados com os saberes do educador em sala de aula, se transformando em aprendizagem a partir de uma classe de estímulos equivalentes entre si, compreendendo figuras, objetos reais e sons, dos quais favorecem na construção deste conhecimento. O que se tem estudado acerca de equivalência de estímulos, evidencia-se que depois de treinar algumas relações entre estímulos, outras, não treinadas, emergem naturalmente sem treino direto. O que se sabe é que o sucesso e/ou o fracasso escolar dependerá exclusivamente das consequências reforçadoras produzidas nas relações de contingências que o indivíduo faz em suas relações com o ambiente escolar.
A abordagem skinneriana resguarda a existência da escola, enquanto instituição, porque a escola da vida não é bem uma escola, não porque ninguém nela aprende, mas porque ninguém ensina. “Ensinar é o ato de facilitar a aprendizagem, no sentido de que quem é ensinado aprende mais rapidamente do que quem não é.” (SKINNER, 1972, p. 4)
As contingências predominantes nas escolas, de acordo com a perspectiva comportamental (ou behaviorista), no sentido de punir muito mais do que reforçar positivamente o que o aluno faz na direção do saber. Verbalizações espontâneas são ignoradas em sala de aula, perguntas só são incentivadas se relativas à matéria (GIL & DURAN, 1993).
Uma pesquisa realizada com alunos da Pré-Escola à Sétima Série do Ensino Fundamental revela, por seus relatos verbais, que vai havendo um desencantamento progressivo em relação à escola, inferido pelos relatos verbais de seus alunos: “aprender é pouco legal”; “as aulas são chatas”; “as notas são baixas”; “os colegas não gostam de aprender”. Falas que têm uma frequência crescente da Educação Infantil ao Ensino Médio (CALDAS & HÜBNER, 2001).
O aprender precisa ser prazeroso para que o aluno se sinta capaz de assimilar e acomodar o conhecimento e não se esquive ou fuja de seu potencial cognitivo. Sabe-se, a partir da perspectiva da Análise Comportamental, que quando uma resposta emitida por um organismo não produz uma consequência reforçadora, a tendência é que este comportamento seja enfraquecido e posteriormente, preservada esta contingencia, que seja talvez extinto.
Um dos mais latentes Analistas de Comportamento, Fred Keller, contemporâneo de Skinner, sugeriu o ensino individualizado como variação aos problemas educacionais mencionados anteriormente, os quais apresentam as seguintes características básicas: planejamento, aproximações sucessivas, respeito ao ritmo do aluno, emprego de monitores, decomposição do ensino em unidades menores, ensinar a pensar, poucas aulas expositivas, reforçamento positivo.
Alves et al. (2011), em artigo publicado pela Revista Brasileira de Ensino de Física, diz que, segundo Keller, o objetivo de um curso baseado no SPI é permitir que o aluno progrida em ritmo próprio do início ao fim do curso, sem ser retardado nem forçado a avançar quando não estiver preparado. Envolve a aplicação da extensa tecnologia de ensino já disponível pelos Analistas de Comportamento, com os seguintes pontos fortes (Hübner, 1988):
• Divida seu curso em pequenas tarefas (unidades), 20 a 30 para um semestre, incluindo unidades de revisão.
• Deixe seu aluno passar por essas unidades em seu próprio ritmo; uma por uma, do começo ao fim do curso;
• Diga ao aluno o que se espera dele em cada unidade e exija o domínio de cada antes de passar à seguinte; se ele não passar, não jogue isto contra ele; diga-lhe quais são os seus problemas e faça um teste alternativo quando ele estiver preparado.
• Não dê nota aos testes você mesmo. Use os estudantes monitores- alunos destacados, cuidadosamente selecionados e cuidadosamente supervisionados. Com preparo adequado eles podem fazer o trabalho tão bem quanto você (ou melhor) e eles vão dizer coisas sobre seus alunos e o seu curso que você não sabia.
• Eles próprios vão aprender muito e merecerão um ponto ou dois de crédito acadêmico, se for possível conseguir, pelo seu trabalho.
• Dê aula expositiva de vez em quando para seus alunos; ou ofereça uma demonstração; mas não exija frequência e não faça a matéria constar de exames. Divirta-se, mas não espere uma multidão. Seus alunos talvez prefiram o tempo para estudar para o próximo teste.
• Esteja à mão, seja na classe ou próximo a ela; podem surgir dúvidas quanto ao texto ou às questões de estudo e os seus alunos e monitores podem precisar de uma ajuda que só você pode dar.
• Modifique o material do curso imediatamente de acordo com a reação dos seus alunos e monitores. Nem as suas questões nem as tarefas serão permanentes.
• Dê nota dez a todos os alunos que satisfizerem suas exigências, pouco importando o quanto demorem (dentro de certos limites) ou quantos testes sejam necessários. Seu objetivo principal não é separar o joio do trigo, como em uma empresa. Nem é medir o QI dos alunos. É apenas ensiná-los o que você, como especialista, acha que devem aprender.
• Não comece o curso a menos que você tenha cobertura do departamento e/ou da administração em tudo o que você estiver propondo e a menos que você disponha de recursos monetários e tempo suficientes para o empreendimento.
Portanto, as dificuldades de aprendizagem na leitura e escrita, podem ser sanadas com métodos e técnicas comportamentais que estimulam e reforçam a emissão de respostas adequadas, aumentando a autoestima de alunos que não conseguem aprender por conta das questões multifatoriais, reduzindo assim a evasão escolar.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As dificuldades de aprendizagem na leitura e escrita ainda influencia o fenômeno da evasão escolar. Muitos ainda abandonam a escola antes de concluírem o Ensino Médio ou até mesmo o Ensino Fundamental. Aprender a ler e escrever é o princípio de todo processo de ensino e aprendizagem e este aprender precisa ser prazeroso para que o aluno se sinta capaz de produzir reforçadores para a aquisição do conhecimento.
As dificuldades de aprendizagem na leitura e escrita ainda são antecedentes de evasão escolar, pois, o fato de não conseguir aprender se torna aversivo e, com isso, o aluno se sentido impotente, deixar de frequentar a escola por fuga e/ou esquiva.
É neste momento que se faz necessário os papéis importantes da família e da escola como agentes reforçadores para a estimulação deste aluno quer aprender e não consegue. O fracasso e/ou o sucesso nortearão este itinerário do conhecimento, favorecendo ou não para que o aluno acredite em seu potencial.
A escola e os métodos pedagógicos precisam ser aconchegantes ao aluno. Entretanto, modificar o ambiente escolar para que ele seja prazeroso ao aluno com dificuldades de aprendizagem ainda é um grande desafio que por diversas vezes se mostra um ambiente punitivo e aversivo principalmente para os com tais dificuldades.
A psicanálise tem sido, até então, a abordagem que mais retrata os problemas relacionados às dificuldades de aprendizagem, porém, a Análise Comportamental tem muito a oferecer para a Educação. Seja pelo SPI de Keller ou Equivalência de estímulos de Sidman ou outros métodos de reforçamento positivo, a aprendizagem tende a acontecer de alguma forma, pois todo comportamento é aprendido e mantido por reforçadores.
Deste modo, não é possível enxergar a Análise do Comportamento como a abordagem meramente mecanicista. Os comportamentos se tornam sociais a medida que os estímulos arbitrários vão sendo reforçados pela comunidade verbal em que o organismo está inserido.
Portanto, a Análise do Comportamento tem muito a contribuir com a educação, favorecendo o processo de ensino e aprendizagem com métodos e técnicas eficazes, por aproximações sucessivas e reforçamentos positivos, aumentando assim, a autoestima do aluno que, a seu ritmo, vai desenvolvendo seus potenciais e afastando de vez as possibilidades de evasão escolar.
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