O suicídio é um tema que promove grandes desafios aos psicólogos e psicólogas no ambiente terapêutico. Os potenciais suicidas possuem padrões comportamentais autolesivos, considerando o histórico de contingências de cada um, exige dos profissionais de psicologia muita habilidade para fazer com que o indivíduo não execute a ação suicida.
Nas diversas culturas existentes no mundo, o suicídio pode ser visto e entendido de formas diferentes, onde filósofos e pensadores, religiosos e cientistas podem apresentar importâncias e significados diversos. Algumas culturas, por exemplo, enxergam o suicídio com um ato de bravura e honratez, como era o caso dos samurais e até mesmo dos camicazes do Japão na segunda guerra mundial, porém, outras, como um ato de covardia.
O que sabemos, na atualidade, é que o suicídio é um assunto grave de saúde e pode ser considerado um problema de saúde pública mundial, pois é um fenômeno complexo multicausal, envolvendo diversas variáveis psicológicas, sociais e neurobiológicas (Baptista, Rigotto & Calais, 2005).
De acordo com o ministério Público, o suicídio é o resultado de uma convergência de fatores de risco genéticos, psicológicos, sociais e culturais e outros, às vezes combinados com experiências de trauma e perda. Pessoas que tiram a própria vida representam um grupo heterogêneo, com influências causais únicas, complexas e multifacetadas que precedem seu ato final. Essa heterogeneidade apresenta desafios para os especialistas em prevenção de suicídio. Esses desafios podem ser superados pela adoção de uma abordagem multinível e coesa para a sua prevenção.
Para os terapeutas analíticos comportamentais há uma análise diferente dos fatores que podem levar ao suicídio. O primeiro aspecto do problema que pode ser levantado é que existe uma razoável interação entre topografia e função do comportamento, pode-se considerar que a mesma topografia pode ter várias funções.
“No caso especificamente do suicídio, nem sempre a resposta suicida tem a função de tirar a vida de quem a comete, mas a de ser apenas uma “tentativa”, no sentido de “chamar a atenção”. Por outro lado, várias topografias de respostas podem ter a mesma função (o que seria chamado de “classe de respostas”), o que, no caso do suicídio, dificultaria ainda mais identificar se uma dada resposta é uma tentativa “real” ou não de suicidar-se” (Banaco, 2001, p.211).
Para a Análise do Comportamento, há diversos arranjos de fatores determinantes do suicídio e seus correlatos. Em geral, grande parte das pessoas que buscam o suicidio como a ultima cartada no jogo da vida, entendem que já não há mais nada a fazer neste mundo, a não ser colocar um fim em seu sofrimento psicológico. Por isso, pela escassez de reforçadores positivos no ambiente, torna-se mais propício a emissão de respostas de fuga-esquiva, frente as situações adversas, do que realizar o autogerenciamento.
Sidman (1989/2001) afirma que o suicídio ocorre sob contingências de controle aversivo, sendo considerado como uma resposta de fuga e esquiva. Estendendo o raciocínio do autor, da mesma forma a experiência com incontrolabilidade de estimulação aversiva poderia servir de contexto para a emissão da resposta suicida.
Destarte, a análise do comportamento entende que se a reposta de fuga-esquiva do individuo está sob controle de estímulos aversivos, presentes no meio social, em função da existência de déficits comportamentais, uma das melhores alternativas é desenvolvendo novos repertórios de comportamento que sejam capazes de tornar a pessoa apta para o autogerenciamento.
Meyer (2001, apud Ribeiro, 2006) afirma que a análise funcional é a ferramenta que auxilia o terapeuta a identificar contingências que operam no presente e interferem nas que provavelmente operaram anteriormente, pode propor, criar ou estabelecer relações destas contingências para desenvolver ou instalar comportamentos, alterar padrões, reduzir, enfraquecer ou eliminar comportamentos do repertório do indivíduo.
A realização da análise funcional leva a uma percepção mais concreta sobre as funções do comportamento suicida. Para Banaco (2001) há várias funções da resposta suicida, da mais leve a aquela que efetivamente chega a ocasionar a morte do indivíduo, e podem ser divididas em quatro classes. São elas: a) simulação do suicídio; b) ideação suicida; c)“tendência”suicida; d) tentativa de suicídio.
Para Sidman (1989), o suicídio só pode ser praticado uma vez, não sendo, portanto, passível de ser explicado por história de reforçamento para esse ato. A resposta suicida pode ser a fuga última de uma vida dominada por reforçamento negativo e punição.
O comportamento suicida possui diversos fatores de riscos que fazem com que este comportamento se mantenha por algum período. Para Baptista, Rigotta & Calais (2005) há fatores de risco relacionados às questões genéticas e biológicas, sociais e culturais e individuais ou psicológicas. Baptista (2004, apud Baptista, Rigotta & Calais, 2005) aponta alguns fatores de risco para tentativa e suicídio, tais como: episódios de depressão passados e presentes; sensação de abandono; isolamento social; falta de suporte familiar; desesperança; transtornos psiquiátricos comórbidos; uso de álcool e drogas; eventos negativos de vida; migração; luto; dor física crônica; quebra ou perda de relacionamentos/pessoas significativas, gênero masculino; estado civil (separado, divorciado); dificuldades escolares e profissionais, dentre outras.
A prevenção do comportamento suicida se faz por meio do reforço dos fatores ditos protetores e diminuição dos fatores de risco, tanto no nível individual como coletivo (Botega, Werlang, Cais & Macedo, 2006). O comportamento suicida possui um conjunto de fatores (biológicos, sociais, econômicos, psicológicos) e dependendo do contexto onde o suicida está inserido, o ato pode ser compreendido não somente como um fator patológico, mas sim como uma necessidade do indivíduo de se esquivar de ambientes altamente coercitivos (Baptista, Rigotta & Calais, 2005).
Portanto, o suicídio é um tema que promove grandes desafios para psicólogos e psicólogas no ambiente terapêutico. Porém, sob a ótica da análise do comportamento é possível, por meio da análise funcional do indivíduo, desenvolver comportamentos adequados para o autogerenciamento que consiste em resolver problemas, tomar decisões e manter o autocontrole, instrumentalizando o sujeito a enxergar uma luz no fim do túnel e encontrar um sentido na vida.
Bibliografia:
Meyer, S. (2001). A relação terapeuta-cliente é o principal meio de intervenção terapêutica?. Em H. J. Guilhardi et al. (Org.), Sobre comportamento e cognição: expondo a variabilidade (pp. 95-98). Santo André: ESETec.
Banaco, R. A. (1993). O impacto do atendimento sobre a pessoa do terapeuta. Temas em Psicologia, 1(2), 71-79.
Sidman, M. (2009). Coerção e suas implicações. (M. A. Andery e T. M. Sério, Trad). Editora: Livro Pleno. (Obra original publicada em 1989).
Baptista, M. N., Rigotto, D. M., & Calais, S. L. (2005). Suicídio: Epidemiologia, características, fatores de risco e medidas preventivas. Em H. J. Guilhardi & N. C. Aguirre (Orgs.), Sobre comportamento e cognição: Expondo a Variabilidade (pp. 350-359). Santo André: ESETec.
Botega, N. J., Werlang, B. G., da Silva Cais, C. F., & Macedo, M. M. K. (2006). Prevençãodo comportamento suicida. Psico, 37(3), 5.